O transporte público faz parte da rotina de milhões de pessoas. Ônibus noturnos, em especial, costumam carregar histórias silenciosas: trabalhadores cansados, ruas vazias e trajetos repetidos todos os dias. Mas em algumas cidades, existe um relato que atravessa gerações de motoristas e passageiros: a história do ônibus da última linha.
O mais estranho não é quem entra nesse ônibus, mas quem nunca desce.
A Linha Que Só Rodava de Madrugada
A linha era conhecida apenas pelo número pintado na lateral do veículo. Não aparecia nos aplicativos de transporte, nem nos quadros de horários mais recentes. Ainda assim, moradores antigos juravam que ela existia.
O ônibus começava a circular exatamente à meia-noite e fazia um trajeto longo, passando por bairros antigos, ruas pouco iluminadas e pontos quase sempre vazios. Seu último ponto ficava em uma região afastada, onde quase ninguém morava.
Motoristas mais novos evitavam assumir aquela linha. Os mais antigos diziam apenas que “não era uma viagem comum”.
O Veículo Sempre Igual
Quem afirmava ter visto o ônibus descrevia os mesmos detalhes: pintura antiga, bancos de couro gasto e iluminação fraca. Não importava o ano ou a época, o veículo parecia sempre o mesmo.
Alguns passageiros relataram que, ao entrar, sentiam uma mudança no ambiente. O ar parecia mais pesado, e o silêncio era absoluto, mesmo com outras pessoas sentadas.
O cobrador nunca falava. Apenas observava.
Passageiros Que Não Interagiam
Um detalhe chamava atenção: os passageiros raramente se moviam. Sentavam-se em silêncio, olhando para frente, sem usar celular, sem conversar, sem demonstrar pressa.
Em muitos casos, quem entrava no ônibus percebia que ninguém solicitava parada. O veículo simplesmente seguia seu caminho, parando apenas nos pontos finais do trajeto.
Ainda assim, novas pessoas apareciam em determinados pontos, mesmo quando não havia ninguém esperando.
O Relato de Um Passageiro Curioso
Um jovem trabalhador contou que, certa noite, perdeu o último ônibus da sua linha habitual. Enquanto aguardava, viu o ônibus da última linha se aproximar.
Sem pensar muito, decidiu entrar.
Logo percebeu que algo estava errado. O cobrador não pediu passagem, apenas fez um gesto para que ele se sentasse. Ao olhar ao redor, o jovem notou que ninguém parecia perceber sua presença.
Tentou puxar conversa com a pessoa ao lado, mas não obteve resposta. Era como se estivesse falando sozinho.
O Trajeto Que Não Terminava
O ônibus seguiu por ruas que o jovem não reconhecia. Algumas pareciam familiares, outras completamente diferentes, como se fossem versões antigas da cidade.
Prédios que não existiam mais surgiam intactos. Postes antigos iluminavam ruas que haviam sido reformadas anos antes.
O relógio do jovem parecia não avançar. O tempo simplesmente não passava.
A Tentativa de Descer
Após um longo período, o jovem decidiu que precisava sair do ônibus. Apertou o botão de parada diversas vezes. Nada aconteceu.
Levantou-se e foi até a frente do veículo. O motorista não reagiu. O ônibus continuava seguindo, ignorando qualquer tentativa de comunicação.
Foi então que o jovem percebeu algo perturbador: refletido no vidro da frente, ele não conseguia ver o próprio rosto com clareza.
O Aviso Silencioso
Uma das passageiras finalmente se mexeu. Lentamente, virou a cabeça em sua direção e apontou para o fundo do ônibus.
Sem dizer uma palavra, fez um gesto negativo com a cabeça, como se estivesse avisando que ele não deveria estar ali.
No fundo do ônibus, havia uma porta diferente, que não existia nos veículos comuns.
A Parada Onde Ninguém Descia
O ônibus finalmente parou em um ponto que não constava em nenhum mapa. O local era escuro, sem placas ou iluminação adequada.
Alguns passageiros começaram a se levantar. Um a um, caminharam em direção à porta diferente no fundo do ônibus e desapareceram ao atravessá-la.
Nenhum deles desceu pela porta da frente.
A Escolha Difícil
Quando chegou a vez do jovem, ele sentiu um medo profundo. Algo dizia que, se passasse por aquela porta, não voltaria.
Em um impulso, correu para a porta da frente e forçou sua abertura. O ônibus freou bruscamente.
O jovem caiu no asfalto.
O Que Aconteceu Depois
Ao se levantar, percebeu que estava em uma rua conhecida, próxima de sua casa. O ônibus não estava mais lá. Nenhum sinal de veículo, nem som de motor.
Seu relógio marcava exatamente meia-noite.
No dia seguinte, ao contar a história, ninguém acreditou. No entanto, motoristas antigos ficaram em silêncio ao ouvir o número da linha.
Um deles apenas disse:
“Você teve sorte de saber onde sair.”
A Linha Que Nunca Foi Cancelada
Até hoje, moradores afirmam que, em noites muito silenciosas, é possível ver o ônibus da última linha passando por ruas vazias. Ele nunca aparece nos registros oficiais e nunca é visto durante o dia.
Alguns dizem que ele transporta pessoas que não conseguiram chegar ao destino certo. Outros acreditam que ele apenas segue um trajeto que não pertence mais ao nosso tempo.
O Medo do Caminho Sem Volta
Histórias como essa assustam porque falam sobre escolhas simples com consequências profundas. Entrar no ônibus errado, aceitar uma carona silenciosa ou seguir um caminho que parece familiar demais.
Talvez o ônibus da última linha continue circulando porque sempre haverá alguém atrasado, cansado ou distraído o suficiente para entrar sem perguntar para onde vai.
E, se isso acontecer, talvez seja melhor prestar atenção em qual porta você escolhe para descer.